Segunda-feira, 25 de Julho de 2011

Nem só de gastronomia e artesanato vive a cultura


Uma das prioridades do nosso país nos últimos anos tem sido a promoção da leitura.
Os vários governos têm tentado criar uma relação mais forte entre os portugueses e os livros. Na verdade, não espanta que assim seja, uma vez que nós não somos habituais consumidores de livros. A leitura é essencial para muitos a nível profissional e é muito importante para todos a nível pessoal. Ela deve ser uma prioridade para aqueles que querem construir uma sociedade melhor. Deste modo, importa que os políticos locais tenham consciência do papel que têm neste campo.

As feiras do livro têm sido uma forte aposta das autarquias para fomentar o contacto dos munícipes com o mundo dos livros. Com efeito, elas são um óptimo mecanismo para facilitar a relação entre autor, editor, livreiro e leitor. E a verdade é que têm sido uma aposta ganha. Nas duas maiores cidades portuguesas, as respectivas feiras do livro já vão na 81.ª edição e nas pequenas começam a ser feitas com alguma regularidade (v.g. Arganil, Ansião, Bombarral e Melgaço). É evidente que nestas não se podem fazer feiras com a dimensão das feiras feitas nos grandes centros urbanos. Todavia, nota-se que elas começam a adquirir um papel fundamental na oferta cultural dos pequenos concelhos e que são realizadas em conjunto com outros eventos.

Tendo isto em consideração, no passado dia 29 de Julho, o PSD apresentou em reunião de Câmara uma proposta para a criação de uma feira do livro que se integraria na Feira de Artesanato e Gastronomia.

Esta junção ou integração explica-se facilmente.

Primeiro, temos de admitir que a Feira de Artesanato e Gastronomia é uma feira cultural,que oferece duas faces da cultura. Ora, quando falamos de livros, falamos também de cultura.
E para aqueles que acham que não se integraria, digam-me então por que motivo se integra um torneio de ténis na Feira de Gastronomia e Artesanato.

Segundo, há que ter em consideração que estamos em crise e, por conseguinte, importa
escolher soluções mais económicas. Assim, ao integrar-se a feira do livro num evento já existente, criar-se-iam sinergias e poupar-se-iam recursos. Tudo aquilo que se comprar para realizar a Feira de Artesanato e Gastronomia serviria para a feira do livro (v. g. publicidade, logística, serviços). A realização de feiras do livro integradas em outro tipo de eventos não é, aliás, estranha, como se pode ver nos concelhos de Ansião e Melgaço. Esta autarquia tem, de resto, uma feira cultural na qual se junta a gastronomia, o artesanato, o vinho e os livros.

Por último, as feiras do livro que conheço são todas feitas durante a Primavera e o Verão(aos exemplos supramencionados, acrescento Lisboa, Porto e Coimbra) pelo que faria sentido juntar a feira do livro a uma iniciativa que já se realiza nesta altura. Só por ignorância se pode pensar que não é altura ideal para a realização de uma feira deste género…

Esta feira do livro seria feita nos cânones em que são feitas por todo o país: vários
expositores de editoras e livrarias. Poderíamos propor aos vendedores que fizessem a Hora H, na qual os livros das 21h às 22h teriam uma percentagem superior de desconto. Interessaria igualmente promover, no âmbito da feira, a apresentação de obras de escritores de reconhecido mérito ou que tenham especial ligação ao concelho ou à região e a apresentação de peças de teatro de autores de referência.

Em períodos de crise, incentivar a leitura e o enriquecimento cultural com uma feira do livro, que traz sempre bons descontos, é uma óptima medida social que deixará também muito satisfeitos os nossos munícipes e que atrairá certamente a atenção de pessoas dos concelhos limítrofes, porquanto se tornaria a Feira de Artesanato e Gastronomia da Mealhada mais atraente e cativante. Seria uma feira verdadeiramente fomentadora da cultura e do saber. Além disso, devemos aproveitar o facto de estarmos perto de duas Universidades e de cidades nas quais há editoras e livreiros que estarão interessados em participar.

O desafio foi lançado pelo PSD e reprovado pelos socialistas, embora alguns tenham reconhecido o mérito da iniciativa. Porém, acredito que mais tarde nos irão dar razão e ver que nem só de gastronomia e artesanato vive a cultura.

José António Pires
JSD Mealhada

Artigo de opinião publicado no jornal Mealhada Moderna

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