É tudo à grande!

No passado dia 03 de Maio, o nosso Primeiro-Ministro dirigiu-se ao país para falar sobre o acordo para o programa de assistência financeira. Ao ver tudo aquilo que Sócrates dizia, fiquei convencido que estamos perante um profeta que nos guiou sempre, durante estes 6 anos de governação, por bons caminhos e que lutou ferozmente contra os vários inimigos (1.º, a pesada herança dos governos PSD-CDS; 2.º a crise do subprime; 3.º as agências de rating; 4.º contra o FMI), e que, afinal, como disse o Nilton, quem precisava de ajuda talvez fosse o FMI.
Na verdade, os factos dizem o contrário, dizem que os governos de Sócrates se caracterizam por uma navegação à vista, negando sempre a realidade. Para a posteridade ficará, entre muitas outras coisas: o Ministro Pinho que anunciou o fim da crise em finais de 2006 (lembre-se que a crise financeira foi anunciada em princípios de 2007 e rapidamente se tornou económica); o Ministro Lino do “Na Margem Sul, jamais” (lembre-se que o nosso aeroporto está previsto para Alcochete); e, mais recentemente, a obsessão de negação do real estado da Nação, com a subida dos ordenados dos funcionários públicos em ano de eleições, com a negação do problema da dívida pública, com o reconhecimento tardio do valor do défice de 2009, com a negação da necessidade de austeridade até ao último minuto. Tudo isto terminou com a cereja no topo do bolo quando, a 9 de Outubro de 2010, o Ministro Teixeira dos Santos declara aos portugueses que 7 % era o limite para a entrada do FMI e, aproximadamente um mês depois, já a taxa havia ultrapassado esse limite, e – pasme-se – só em Abril de 2011 (6 meses depois) se pediu ajuda (numa declaração do Primeiro-Ministro em que a grande preocupação era a perspectiva em que era captado pela câmara, em que o Luís ficou famoso), por culpa (depois deste tempo todo) da oposição irresponsável. Este governo fará também história com uma tolerância de ponto dada – antes de um fim-de-semana ao qual se juntaram dois feriados – enquanto os senhores da troika se encontravam em Portugal a trabalhar na elaboração de um plano de ajuda ao país e por em poucas semanas ter tido três valores para o défice (6,8 %, 8,6 % e 9,1%).
E – aqui d’el rei! – se alguém puser em causa o profeta, defensor de Portugal, logo vêm as hostes socialistas apontar o dedo aos infiéis. Quem ousa pôr em causa o aeroporto na Ota? Certamente, um infiel. Quem ousa pôr em causa o real estado das contas públicas e o forte endividamento do país? Todos os impatriotas. E o PEC IV, aquele que esteve na base do plano acordado com a troika? Ora, Sr. Primeiro-Ministro, se o PEC IV está na base daquilo que é a solução da troika, então por que diz que o país piorou tanto depois do chumbo desse PEC na Assembleia da República? Não careceria então o país de uma solução tremendamente mais drástica?
Tivemos, com efeito, muito tempo em que foi tudo à grande, como diz a peça humorística do autor supramencionado. Agora está na altura de escolher. Sócrates move-se novamente para se manter no poder a todo o custo; não dirá verdade, como nunca disse, e estará disposto a governar, seja como for e seja com quem for (note-se que Sócrates ficará no anedotário nacional pelo convite dirigido a todos os partidos, do CDS ao BE, para um entendimento pós-eleitoral em 2009). Sócrates chegou ao ponto de dizer que governará com quem dissera nunca governar: o FMI. É admirável a facilidade com que se dá tamanha cambalhota… E note-se ainda que o PSD é agora tratado como um possível parceiro de governo. O mesmo PSD que é o grande culpado da crise, o mesmo PSD que todos os dias é cruxificado nos jantar-comícios do PS. São maus? São os culpados? São, mas queremos governar com eles, diz Sócrates. Fico deslumbrado com esta coerência.
Importa, portanto, dizer aos portugueses que no dia 5 de Junho podem escolher uma solução clara para o país, diferente daquilo que foram os 6 anos de governação liderada por Sócrates. Um apoio parlamentar maioritário – sem que seja necessário uma maioria saco de gatos – é essencial para mudar o país, não apenas para sanar as contas públicas, mas para mexer profundamente nas várias áreas fundamentais para Portugal. Não reconheço a premência de um governo Bloco Central e muito menos de um governo PSD-PS-CDS. Portugal precisa, do meu ponto de vista, de um governo forte liderado pelo PSD, sozinho ou em coligação com o CDS e de uma oposição forte liderada pelo PS. Só assim a democracia poderá funcionar plenamente e só assim se poderá mudar o país, não só a nível orçamental. PSD e PS são partidos diferentes, com diferentes visões da sociedade e, por conseguinte, as medidas de um serão frequentemente contrárias às de outro. Deste modo, há que escolher uma solução clara para mudar Portugal.
José António Pires
JSD Mealhada
Artigo de opinião publicado no Jornal da Mealhada













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